A Maria Fumaça
Desde menino, quando ainda era chamado por deu pai de Joãozinho, seu sonho era trabalhar na linha férrea comandando a locomotiva da usina, a velha Maria fumaça. Ver aquele monstro de ferro, cheirando a óleo e graxa, rangendo nos trilhos, puxando vagões de cana-de-açúcar, de sacas, de tonéis e caixas fazia o coração do pobre menino palpitar, sair pela boca.
Os trilhos da ferrovia da Usina Canavieiras cortava o pequeno sitio de seu pai ao meio e três ou quatro vezes por semana era possível ter o prazer de ver a Dona Maria Fumaça passar. Quando em direção à usina, levando seus carros abarrotados de cana queimada e na volta, não sabia para onde, transportava sacas abarrotadas de açúcar, caixas de madeira, tonéis, vagões pipa. Peças de maquinário.
O primeiro aviso de sua passagem era o tremor nas taipas da casa:
- A máquina está vindo!
Gritava Joãozinho corria feito um louco saltando entre as pedras do caminho desviando do cercado dos cabritos, passando entre macaxeiras, pela sombra do ingá, parava abruptamente no meio do pasto, apoiava os punho fechados em sua cintura em posição de xicara com duas alças, estufava o peito e se punha a admirar a locomotiva passar com sua cara preta, lagarta cuspidora de fumaça, sua chaminé deixando para trás um rastro preto de fumaça. O maquinista era como um amigo seu. Um parente distante fazendo uma visita rápida, o domador da fera de aço. Quando passava por ele acenava com uma mão enquanto acionava o apito com a outra:
- Piui! Piuiii! Piui! Piuiii! Piui! Piuiii!
O chão tremia, o galo cantava, até o céu azul mudava um pouquinho de cor. Quente e barulhenta. Naquela época não havia nada na região capaz de produzir um som tão alto como o daquele motor.
Era meados de 1950.
O trem, mal o menino sabia, naquela época já se tratava de uma relíquia da história locomotiva. Maquina adquirida nos áureos tempos da Usina Canavieiras. Quando João Batista viu a luz do dia pela primeira vez a Velha Companhia açucareira estava começando a perder a batalha contra o ferrugem. Dividas se acumulando, a exportação quase não existia mais. Seu pai contava de uma época, não tão distante em que o trem passava duas vezes por dia, sempre abarrotado e com pressa. O maquinista não apitava, nem nada. Estavam todos já acostumados com os agitos do trem. Seus horários eram certos. Era possível marcar a hora do dia com a passagem da máquina. Cortava o dia na hora do almoço e na hora da Ave-Maria.
O menino cresceu admirado com aquele monstro de ferro. Sempre correndo para vê-lo passar. De repente ele sumiu. Sem aviso, deixou de passar. A usina faliu. O mato começou a tomar conta da estrada de ferro. Passou muitos anos até que o coração de João Batista viesse a palpitar daquele jeito.