Dona Maria Adelaide, a viúva
- Um calor dos infernos! O verão mais quente da história, falou o homem no rádio.
Chove todos os dias: - chuvas torrenciais ao final do dia. O mundo desaba toda a água
do céu e imediatamente estrelas surgem brilhantes, junto a elas, as muriçocas
brotam aos milhões. Não há como abaná-las. Mangas compridas não ajudam muito,
as sanguinárias sugam por cima do tecido. Dentro da barraca, verdadeira estufa.
O calor absorvido durante o dia, não se dissipou com a chuva que fez. O jeito é
se conformar. Cobrir-se o corpo inteiro e esquecer o inferno, tentar dormir.
Sonhar em um dia melhor para amanhã.
Dona
Maria, é assim que a chamam no acampamento Mutirão Utopia. Odeia com todas as
forças ser chamada de ‘dona’. Ganhou este título por, supostamente, ser a mulher
mais velha daquele lugar. Desconfia piamente que Joana seja, pelo menos, dois
ou cinco anos mais velha que ela. Indigna-se por Joana também não receber o
título de dona.
-
Dona Joana... assim que aquela velha deveria ser chamada... Joana... velha do
caralho!
Carrega em si como se fosse hoje, o tempo em que ninguém jamais ousaria
sequer pensar em chama-la de Maria. Era Adelaide seu nome. A Adelaide que vive
nas lembranças e no âmago desta senhorinha de cabelos brancos e fisionomia
aparentemente frágil jamais viveria naquelas condições insalubres. Nunca
imaginaria, em seus piores pesadelos voltar à pobreza.
Adelaide
era uma mulher poderosa, de salto alto deste o momento em que descia da cama. Colares,
brincos enormes de pedras reluzentes, banhadas por muito sangue e suor em
jazidas remotas de países distantes. Seu corpo voluptuoso, cheio de curvas, de
formas e textura. Cabelos longos, volumosos, com cachos enormes e sempre bem
definidos. Uma verdadeira deusa da fertilidade capaz de derrubar imperadores,
elevar civilizações inteiras.
Estava
nas manchetes de todos os jornais, das revistas mais famosas. Sempre em coquetéis badalados,
em eventos de luxo, tapete vermelho. Sorrisos constantes. Viagens a todo
instante. Todos aos seus pés.
Uma socialite.
É
bem verdade que nunca produziu nada, talvez nem tenha contribuído muito com a
sociedade. Não nasceu para ser atriz: - É
profissão de PUTA! Dizia. Nunca teve o dom para cantar. Até pensou em ser
uma cantora do rádio algum dia, mas não se empenhou para isso. -Sem tempo. Detestava o cheiro de tinta. Não via graça nenhuma em artes plásticas. A única obra de arte que prendia sua atenção, era justamente aquela que
mandou espalhar por todas paredes de seu palacete: o espelho. Vivia para a
autocontemplação e para ser adorada. O mundo, ao olhar para Adelaide, poderia
ser bem dividido em dois tipos de pessoa: as que a desejavam ter e as que desejavam ser.
Das
que desejavam ter – para si ou um
instante em seus braços. Adelaide recebia propostas indecentes, olhares
compridos e indisfarçáveis, presentes majestosos. Para alguns, sedia. Não por
outro motivo que não o desejo de satisfazer seu corpo, permitindo que um outro
devoto, sabedor de sua insignificância perto da deusa, para demonstrar sua
gratidão, se ajoelha-se, cumprisse penitencia e realizasse todas as suas obrigações
religiosas.
Das
que desejavam ser, Adelaide se deliciava ao ver a inveja, a reprodução mal
feita de suas súditas que, a todo instante, mudavam o cabelo, usavam vestidos
cada vez mais extravagantes, maquiagens exageradas, trejeitos mal ensaiados, o
andar desiquilibrado ao tentar movimentar o quadril imitando seus passos. - Ninguém! Jamais encontrou alguém como ela mesma. Nunca se sentiu ou foi realmente
ameaçada por outra mulher. Esteve em quase todos os lugares do mundo ou pelo menos
nos que acreditava ser os mais importantes de se estar ou conhecer. Em todos os
lugares a experiência se repetia: ninguém como ela; inveja coletiva; mimetismos.
O que só alimentava ainda mais a sua vaidade, o seu ego.
Não. Adelaide não nasceu rica e poderosa. Nasceu
na sarjeta e só não morreu de fome e de frio junto com sua família graças a
misericórdia alheia. Ou outra coisa. Sua mãe, entrou em trabalho de parto no momento em que estava sendo
despejada do cortiço em que vivia juntamente com os seus outros dois filhos. No
hospital, um completo desconhecido se compadeceu da pobre família e os convidou
a morar em sua chácara no interior do Estado.
Seus
irmãos de dez e oito anos tornaram-se imediatamente funcionários daquele
generoso benfeitor. Cuidavam dos animais, limpavam o terreiro, o pátio, a
piscina. Sua mãe, logo que saiu do curto resguardo já era solicitada para
faxinas, cozinha e cama do nobre senhor. Eram gratos e devedores daquele que
ofertou teto, comida e cama para uma família tão carente e desprovida de tudo.
Naquela época Dona Maria ou Adelaide chamava-se Maricota. Era
tratada como uma pequena princesa naquele pedacinho do céu. Acreditava mesmo
que o patrão era o seu pai. Ele também gostava de fingir que era. Desde aquela época
já era linda. O “seu pai” dizia que ela era um pequeno cisne no meio daqueles
patos. Maricota, como toda criança inocente, acreditou.
Cresceu sabendo-se diferente, melhor que os
demais. A ela toda sorte de presentes, mimos, cuidados. Seus irmãos, cada vez
mais ocupados com as tarefas designadas pelo patrão. Trabalhavam por gratidão. Por
dívida eterna, impossível de ser paga em uma vida só. Mamãe perdeu-se nas
promessas daquele homem tão generoso, tão educado, tão gentil e tão escasso.
Escasso porque era casado, tinha sua família
na cidade e a chácara era o seu refúgio para os momentos de tédio. Sua família talvez
sequer suspeitasse que ele possuísse tal propriedade. Passava duas, três
semanas sem aparecer. Surgia de repente, sem aviso, sem hora certa. Sempre sozinho,
trazendo comida. Mimos para Maricota: vestidos, laços de fita, doces. Para os
meninos, às vezes, roupas usadas em trouxas de pano. Para a mãe trazia coisa ou
outra acompanhada de seu desejo pela carne.
A vida correu neste ritmo pelos primeiros
dez anos da vida de Maricota. Estava se tornando mocinha acreditando-se ser realmente
a pessoa mais importante do mundo. Sua própria mãe dizia isso.
-Só estamos aqui graças a Maricota. Devemos isso a ela!
Até que seu pai nunca mais voltou. Jamais
souberam o que aconteceu com ele. Simplesmente sumiu. Em todos esses anos
jamais souberam onde ele vivia, qual era seu verdadeiro nome. Viveram ali a
eterna espera por seu retorno. Passaram fome mas não deixaram de zelar nenhum
instante por aquele lugar. Quase um ano
esperaram notícias. E elas chegaram por meio de uma ordem de despejo. O sítio
havia sido vendido e seus novos proprietários exigiram o imóvel desocupado
imediatamente.
Estavam
na rua e novamente foram obrigados a contar com a misericórdia humana. Os irmãos, já maiores
de idade seguiram seus caminhos. Mamãe parou em uma fazenda na função de
cozinheira. Maricota ajudava nas tarefas, mas servia melhor como dama de companhia
das crianças da casa. Ficou por ali se misturando com os patrões e acreditando
mesmo ser igual a eles.
Cresceu não enxergando em sua mãe nenhuma
semelhança aproveitável, mas recorreu a ela quando o fazendeiro tentou dela se
aproveitar.
-Socorro! Me ajuda! Chorando contou o que
havia acontecido. Sua mãe, já acostumada ao adverso, pôs panos quentes, disse
que é assim mesmo que o mundo funciona, que não poderia contrariar o patrão,
perderiam assim tudo que conquistaram:
- Na
vida tudo tem um preço minha filha. Essa é a vida do pobre.
Maricota não quis saber dessa história e
sumiu no mundo.
