Os Ciganos




 

Oswaldo era cigano de pai e mãe, criado e batizado dentro de acampamentos, experimentado na arte da sobrevivência, adaptado a vida de viajante, de nômade, acostumado com o confronto, com o conflito e o despejo. O medo que todos ali traziam de se enfiar no meio do mato com toda a família, enfrentando tantos riscos e intempéries, mudanças, tempestades, capangas e vizinhos encrenqueiros, para ele não era nada, quase como rotina. Um estilo de vida seu, da sua família, de seu povo.

                Viveu a vida inteira no cerrado. Por lá nasceu, cresceu, constituiu família: mulher e sete filhos. Jandira, sua esposa, também era sua prima. Ambos Calon de nascimento e cultura. Nunca haviam se ausentado, vivido longe de seus parentes, de seus pais.

                Atravessaram o pais sem olhar para trás, como se fossem exilados, expulsos de sua nação, puseram tudo que tinham na perua, amarradas sobre ela, além dos sete filhos espremidos nos bancos de trás.

                Iniciaram a jornada em uma veraneio nova, chegaram a Vila de São Luís dentro de um corcel velho. Quase dois meses de viagem, enfrentando muita dificuldade, muitos sonhos e anseios construídos e desconstruídos a cada parada. Suor, risos, esperança e lagrimas a cada quilometro da estrada.

                Primeiro pensaram em ficar em Goiás, não deu certo. Quem sabe em Brasília? Traziam péssimas lembranças de um acampamento que viveram por lá. Por quase um mês viveram acampados em uma paragem em Minas, parecia mesmo que eram o lugar que tanto procuravam, não era. Sem perceber, sem destino certo, foram descendo o mapa e acabaram parando na Vila, quase sem recursos, pensando em, quem sabe, votar para casa.

                Oswaldo, com seu sangue quente e espirito forte, muito cabeça dura, jamais voltaria para junto dos seus em uma condição pior do que a que estava quando saiu. Agora era a pior situação que se encontrava em anos. Sempre foi um homem de gambira, negociante nato, estava sempre vendendo, comprando ou trocando qualquer coisa, fosse dele ou de outra pessoa, desde que levasse alguma vantagem na negociação.

                Longe de casa seus recursos e argumentos eram escassos. Para alimentar seus sete filhos, bancar o combustível, os gastos da viagem, teve que abrir mão de muita coisa que até então eram questões de honra e distinção para ele. Se desfez do seu relógio, fruto de sua primeira negociação de cavalos. A pulseira de ouro que ganhou de Jandira. A Veraneio que quase se matou para pagar, em Minas virou um Passat, em São Paulo, uma Belina, pouco antes de chegar na Vila e já era um Corcel amarelo e barulhento.

                Quando decidiu rumar para o litoral, acabou chegando na Vila de São Luís, bairro pobre, afastado e superpopuloso. Muito mais gente do que gostavam ou que estivessem acostumados a ver. Ali deparou-se com um assunto que estava agitando muita gente: a formação de um grupo de sem-terra, que todo mundo poderia participar, que se tratava de terras do governo, lá em uma tal de terra improdutiva.

- Acampamento no meio do mato? Eu quero gajão!



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