O povo da fazenda
E como chovia naquela noite de
domingo, parecia até que o mundo iria acabar de vez.
- Chove que é uma desgraça e esse calor que
não passa!
Junto com o aguaceiro a
ventania. A varanda da casa grande balançava pedindo para cair. O barulho da
calha batendo, da trave da cumeeira rangendo, telha caindo.
Atrás do curral e do barracão
grande fica localizada as casas de alojamento da fazenda e por lá vive Seu
Antônio, capataz da Boi Valente. A única que não é geminada, ficando afastada,
atrás da casa de maquinas. Vive com uma de suas filhas, o genro e o dois netos.
É uma casinha de duas aguas um pouco maior que a cozinha da casa grande. Quatro
cômodos: sala, dois quarto e cozinha. Banheiro não tem. Para todos os
residentes, um banheiro coletivo anexado ao curral.
Era a única casa separada e
também a única de costas para o conjunto curral e galpão. Janelas e porta
voltadas para os fundos, com vista para o vale, mais especificamente na direção
da porteira. De lá, mesmo nos seus momentos de descanso, poderia o capataz e
sua família manter vigilância no movimento de entrada e saída da fazenda.
Vive no mesmo lugar desde
criança, ou melhor, desde que o julgaram adulto o suficiente para assumir
responsabilidades. Chegou ali aos dez anos de idade pelas mãos de seu pai e
entregue ao patrão com contrato firmado e garantido na palavra de que o menino
era bom de serviço e aprendia rápido qualquer coisa. Seu Antônio, no alto de
seus sessenta e oito anos de idade, ainda se sente grato ao finado patrão pela
acolhida, pelo prato de comida que recebeu naquele dia.
Chegou na fazenda no ano de 1932
e passou quarenta e nove de seus anos de vida lidando com o cuidado das vacas,
curando bezerro, limpando o curral, plantando e cortando da capinheira,
esticando cerca, varrendo o pátio e vigiando a porteira. Buscou a vida inteira
ser o braço direito do dono. Sonhava em ser reconhecido, ter algum respeito.
No dia em que o patrão morreu,
seu pequeno mundo virou do avesso. Sentimentos estranhos extrapolaram de sua
alma atordoando a sua mente. Solidão, medo, angustia, desejo e liberdade. Até
pensou que morreria junto. Como ninguém se propôs a chegar perto, foi Seu
Antônio quem tratou do corpo, lavou, vestiu, pois na urna. Velado na casa
grande, somente o pessoal da fazenda e um dos filhos compareceu. Enterrado
atrás da capela de Santa Lucia juntamente com a paisagem prospera daquele
lugar.
A Fazenda Boi
Matador arruinou-se.
Primeiro levaram os bezerros e
os equipamentos caros. Mataram uma vaca leiteira a tiros e dela fizeram
churrasco. Brigaram entre si, muita discussão e violência. O gado foi todo
embora em cima do caminhão. A essa altura, ninguém recebia mais o salário. Os
herdeiros não se entendiam, houve morte, gente desaparecida até hoje. Não havia
mais trabalho, não havia mais ordem, talvez não houvesse mais patrão. Certamente,
para Seu Antônio, não havia para onde ir.