A história da fazenda

 

              


  A fazenda Recanto do Boi Matador sempre foi lembrada por sua imponência e beleza, verdadeiro oásis de prosperidade e desenvolvimento aflorando no meio de literalmente nada, é o que diziam. Respeitada como uma fazenda moderna e rica, grande contratante de mão de obra. Pastos verdes bem tratados, ornados com belíssimos espécimes de vacas holandesas malhadas de branco e preto, com seus úberes inflados de leite quase a arrastar no chão. A estrada de Santa Lúcia, a Comunidade: capela, praça, escola e comércio só existem hoje porque um dia serviram em função da fazenda. Mas as coisas nem sempre foram assim.

                Quando Jonas, o finado dono da fazenda Boi Matador, assumiu aquelas terras em tributo de seu velho avô, prometeu a si mesmo transformar aquilo que herdou em uma fazenda de respeito e prestígio jamais visto em lugar nenhum da região. Para ele, tudo não passava de uma simples instância com casa de tábuas, o barracão, um laranjal, os animais de terreiro e algumas vacas pé duro que nada produziam e só faziam desonrar a imagem da família.

                Ao fazer o que fez, imaginava sempre um legado, a honra do avô, a glória dos filhos que viria a ter, levaria adiante a imagem de uma família pioneira, grandiosa e de prestígio. Acontece que, primeiro, Jonas, diferente de nós que já chegamos até aqui neste livro, não tinha como saber ou não soube criar bem seus filhos e, com certeza, não sabia muito sobre quem era e quais foram as aspirações de seu avô.

                Sobre os seus filhos, um deles podemos dar destaque pela importância e dedicação aplicada por Jonas em seu desenvolvimento e criação: a fazenda Boi Matador. A ela, toda honra e toda glória, todo investimento, todo tempo, todo amor. Seus herdeiros já nasceram de um pai apaixonado pelo ofício e pela sina. Não havia muito espaço na cabeça e no coração de Jonas para caber outra coisa. Ao tratar dos filhos, os assuntos sempre eram relacionados ao cuidado com as vacas, na melhoria das pastagens, no legado que deveria ser entregue e levado adiante.

                Sempre criando disputas e situações de competição entre os filhos, com o intuito de torná-los homens de negócios, guerreiros, brutos e funcionais, capazes de dominar em toda e qualquer situação. Competitivo que era, jamais permitiria ser ultrapassado por quem quer que fosse, até mesmo por um filho seu. Transformava a rotina em família em um eterno concurso agropecuário para provar a melhor raça, o melhor porte, o melhor espécime.

                Os dois primeiros filhos viveram pouco tempo perto do pai. Aos dez anos de idade, foram embora morar na cidade, pois a mãe não suportou viver ao lado de um homem tão obcecado por vacas. Não havia outra coisa a se falar, pensava-se só na fazenda. Não se podia ouvir música, não tinha televisão, não recebiam visitas. Era tudo sobre o Boi Matador, e o que não fosse a fazenda era perda de tempo e dinheiro. Vivia a compará-la com vacas premiadas, acreditando ser elogioso por conta disso. Chegou mesmo a tentar apelidá-la de "Gir", foi a gota d'água.

                Casou-se novamente, desta vez com uma prima de primeiro grau, filha de seu tio, com quem travou uma disputa. O tio era o herdeiro direto e queria ficar com a estância do pai; um acidente a cavalo o tirou do páreo, restando a pequena filha e a pobre viúva como herdeiras de parte daquele fim de mundo. Jonas comprou por uma bagatela. Agora, depois de tanto tempo, aproximou-se da família. Buscava laços familiares e talvez uma esposa um pouco mais confiável do que a primeira, a qual considerava ingrata e sem brio. Não era o suficiente para viver um sonho tão grandioso como o próprio.

                A prima não era mais a pequena menina chorona da qual se lembrava do velório do tio. Era agora uma moça razoavelmente bonita, isso, nos critérios de Jonas, analisando as características reprodutivas, como a largura das ancas, a postura dos ombros, a coloração dos cabelos e pele, a imposição da voz. Além das características necessárias para uma boa matriz, a prima, diferente da primeira esposa, já estava acostumada com a vida em ambiente rural. Vivia uma vida sossegada em uma fazenda próxima dali com sua mãe e um padrasto muito velho e endividado.

A prima lhe gerou um filho.

                Este nasceu com os instintos do pai, ainda mais sem escrúpulos e sedento de vitória e poder. Aos sete anos, foi repreendido por Don’Ana por atirar com uma espingarda nas galinhas do terreiro. Aos onze, o próprio pai teve que intervir quando se deparou com ele açoitando o filho de um dos tratadores com um chicote e o chamando de “meu escravo”. Aos quinze, era o terror da localidade, fazendo arruaças para além da fazenda. Não queria saber de gado, não ia à escola, odiava o pai e vivia se apoiando nas barras da mãe.

                A mãe, mesmo submissa ao marido, nutria por ele rancor e desprezo, atribuindo-lhe a morte de seu próprio pai. Casar com Jonas, seu primo, foi a maneira mais eficiente, ou talvez mais rápida, de reaver tudo aquilo que entendia ser seu por direito.

Péssimo negócio.

                Sofreu todo tipo de mazela, sofrimento e privação nas mãos daquele homem que não se importava com nada nesse mundo que não fossem suas vacas, seu pasto e a qualidade do leite. Como vingança e instinto, quase sem querer, transformou seu filho único em arma nesta guerra conjugal. Alienou a parentalidade de Jonas o quanto pôde, nutrindo em seu filho todo o ódio, todo o desprezo que carregava em seu peito. Criou o filho como quem cria um animal de rinha: raivoso, com sede de sangue, com desejo de morte.

                Desde a primeira infância, ainda no colo, já não gostava da presença do pai, tinha ciúmes da mãe, não dividia nada e nada aceitava de suas mãos, não dava atenção para as histórias, chorava quando ouvia a voz de Jonas, não aceitava sua presença, fugia. Sua vida era contrariar o pai, assim foi ensinado, assim levava à risca.

                Jonas também não fazia nada para reverter esse quadro. Passava muito tempo fora de casa tratando de seus negócios: negociando gado, participando de exposições, em seu escritório na capital, na fábrica de laticínios, em suas farras extraconjugais. Logo que percebeu a antipatia do garoto, resolveu pagar com a mesma moeda. Pouco se importava com a sua presença, falava quase nada, quando muito utilizava a mesa de jantar para se gabar de algum de seus feitos extraordinários ou para falar de seu assunto favorito: bezerros recém-paridos.

                Tornou-se viúvo, a pobre infeliz de sua prima morreu no ano de 1976 aos quarenta, vítima de um enfarto fulminante, morreu sentada à mesa de jantar com a cara enfiada em um prato de salada. Não estava em casa, no momento em que seu filho mais precisava de sua companhia. Estava ele enfiado em uma fazenda pelos sertões de Minas, negociando suas vacas. Distante, região remota sem acesso a telefone ou telegrama. O capataz, Seu Antônio, bem que tentou avisá-lo, indo a cavalo a todas as localidades onde acreditou poder encontrar vestígios da presença de seu patrão. Só ficou sabendo mesmo de sua viuvez quando chegou em casa duas semanas depois e a encontrou vazia, luzes apagadas, as flores e velas do velório ainda repousavam na sala de jantar como um lembrete macabro de que alguém havia sido velado ali.

                Passou um ano inteiro sem contato com o filho. Este, já com seus dezoito anos, passou a viver com a avó materna, ajudando com o trato da fazenda e destilando seu ódio, misturando-o na bebida. Quando se encontraram, eram apenas dois estranhos, tratando de assuntos relacionados a dinheiro e documentos pendentes.

                Jonas foi envelhecendo sozinho, cercado apenas de seus empregados mais antigos, somente aqueles que tinham fincado suas raízes naquelas terras e que realmente não tinham para onde ir. Acabou deitado sobre os escombros de seus próprios sonhos, em seus devaneios forrados sobre sua noção confusa sobre o que é legado, honra ou a glória de seus antepassados.

                Do tempo em que conviveu com seus avós na antiga estância que ali existiu, pouco se recorda. Lembra apenas do que conseguia ver: pobreza, falta de investimento, baixa produtividade e potencial desperdiçado. Tanta coisa sem importância... Talvez, se tivesse prestado um pouquinho mais de atenção no que seu avô dizia, em como ele tratava o chão, os animais, do jeito em que ele gostava daquele lugar e da sorte que sentia de poder estar ali com a mulher que amava e com ela ter criado filhos fortes e saudáveis, tirando o sustento da terra com suas próprias mãos, a vida certamente teria sido diferente. Na verdade, Jonas não conhecia seu avô e assim não soube levar adiante seu legado de homem pacífico, honesto e dedicado à família.