Projeto livro DONA MARIA, ADELAIDE, MARICOTA
Capitulo I
— Então, esse daqui é o seu quarto.
Pode deixar as suas coisas nesse armário. Eu já deixei tudo arrumado para você.
— Sim, está tudo ótimo. — É que você não sabe como estava aqui antes. Este quarto
estava servindo de depósito, você não tem noção. Havia uma pilha imensa de
coisas. Não jogavam nada fora. — Sim. — Não sabia para que serviam, então
coloquei tudo na garagem. Você vai ver depois. Vem, eu vou te mostrar o resto
da casa. Preciso ir embora. — Mas e ela? — Está dormindo. O quarto é esse
daqui. Ela deixa fechado e, se abrir sem a permissão, vira um inferno. —
Entendi. — Então, está tudo certo. Preciso ir embora, mas amanhã eu volto para
ver se está tudo bem. Fico feliz que você tenha vindo. Tem comida na geladeira,
e o horário dos remédios está preso à porta. Boa sorte.
O som agudo do portão de ferro sendo
batido soou como uma sineta na cabeça de Barbara, acordando-a para a seriedade
da situação em que se metera. Agora, ela estava sozinha em uma casa estranha
com a missão de cuidar de uma mulher enferma. Em sua vida, jamais havia se
dedicado a cuidar de muita coisa e, para ser honesta, não poderia dizer que
estava apta a cuidar nem de si mesma.
A casa estava em penumbra, com
janelas e portas fechadas. Dona Maria
passava quase todos os seus dias no quarto, deitada sozinha, olhando para o
teto ou dormindo. Barbara imaginava que isso eram efeitos dos remédios: — Temos
que rever a medicação, pensou. Ninguém deveria passar seus últimos dias na
Terra apenas dormindo, narcotizada para o bem-estar do cuidador.
Seguindo a recomendação de Dona
Ivete, Barbara nem mesmo tocou na porta do quarto. Cuidadosamente começou a
abrir as enormes janelas de madeira da casa o mais lentamente possível,
evitando qualquer tipo de ruído. A casa se iluminou rapidamente. Era um dia
claro de verão, e às oito da manhã o Sol já mostrava toda a sua graça.
Todos os vãos estavam abertos, as
paredes incrivelmente brancas com seus arcos de tijolos, suas portas e molduras
de um azul mediterrâneo, o chão de lajotas avermelhadas. Móveis de madeira
entalhada e poltronas revestidas de couro marrom. No ambiente, nada que
conotasse poder ou dominação. Era simples, até modesto. Uma combinação
confortavelmente rústica que parecia ter sido criada ao longo de muitos anos,
com a coleção de diversos itens íntimos da dona: fotos antigas, bibelôs, alguns
livros. Nenhum quadro nas paredes. Barbara não se lembrava de ter estado em
algum outro lugar assim antes, mas mesmo assim sentiu que havia algo de
familiar naquela casa. Um certo sentimento de lar.
Ela estava ali para cuidar de Dona
Maria, uma mulher de setenta e dois anos, viúva, portadora de uma senilidade
ainda não diagnosticada. Dona Maria recusava-se a realizar qualquer tipo de
exame que pudesse indicar que estava louca. Logo nos primeiros sinais de
esquecimento, seu marido ainda vivo, Seu Jorge, chegou a levá-la ao médico. Um
neurologista a encaminhou para exames detalhados, onde poderiam ter uma análise
mais completa e saber ao certo que problemas estavam enfrentando. Ela recusou-se: — Você me conhece muito bem,
Jorge. Eu não sou louca! Não vou fazer exame nenhum!
Começou de forma quase
imperceptível, pequenos esquecimentos em sua rotina. Uma vez, esqueceu que
havia posto sal no ensopado e temperou duas vezes. Antes de servir, jogou fora,
refez e fingiu que nada havia acontecido. Em outra ocasião, deixou as chaves
presas ao portão, sendo Jorge quem as encontrou. Um dia, esqueceu-se do nome da
novela que assistia todos os dias. — Que estranho…
Adorava cuidar da horta, de suas roseiras,
sabia o nome de cada planta, diversos nomes para falar a verdade, sabia a
nomenclatura científica, o que aprendera na infância com sua mãe, o dado em
diversas regiões do país e em outros idiomas. Fazia parte de seus jogos mentais
ficar brincando com pronúncias, verbetes, sinônimos e adjetivos rebuscados.
Assim passava seus dias de idosa feliz em sua chácara no interior. Cuidava das
plantas, do seu cão Napoleão e de seus gatos inomináveis. Compondo versos e
músicas que nunca registrou no papel, para os quais nunca ligou um gravador.
Cantava e declamava enquanto realizava suas tarefas, assim que terminava já não
se importava mais. Esquecia.
Um dia, enquanto ajoelhada à beira
de um canteiro de hortaliças, desbastando ervas daninhas, durante muito tempo
esteve em silêncio, nenhum verso, nenhum cantarolar. Jorge, segurando uma
caneca de chá, aproximou-se e perguntou: — Pensando em quê, Adelaide? Nunca te
vi tão quieta. — Eu não estou pensando em nada. A frase saiu de sua boca quase
como uma pergunta. — Nunca te vi assim, mexendo em suas plantas em silêncio,
está sempre cantando, falando sozinha. — Eu não falo sozinha, seu bobo. São
meus pensamentos e sentimentos que escapam pela minha boca e são absorvidos pelo
firmamento. — Ah, pois bem, eu prefiro você assim, declamando suas loucuras. —
Ai, Jorge, vai para lá, que está me atrapalhando com sua insensibilidade
poética. — Cuidado com suas costas, Adelaide. Eu vou entrar, está muito frio
aqui fora.
Um eco em sua cabeça como jamais
havia tido antes. — Que estranho… Ficou olhando Jorge caminhar em direção à
porta dos fundos, tentando entender o que estava acontecendo. Relacionou o seu
estado a uma noite mal dormida, desconsiderou a preocupação repentina e voltou
a capinar o canteiro com seu pequeno sacho de madeira, tentando não se manter
em silêncio.
***